- Um minuto! A discussão está encerrada, vocês já tiveram o tempo necessário, hora de recolher! Fala São Pedro, o guardião do céu, incumbido de preservar o ambiente celestial e de evitar reuniões, protestos e eventuais debates. O problema era que teimavam em continuar discutindo, lá no céu, a situação dos jornalistas aqui embaixo na terra.
Chatô sente o clima pesar e responde:
- Olhe São Pedro, você está nos tirando o direito de livre expressão de pensamento. Discutir jornalismo aqui também vale, afinal a situação lá não é muito favorável! Além do mais, aqui no céu estão reunidos homens experientes nesse assunto e que podem ajudar a resolver o problema. Vlado, por exemplo, honrou a profissão até a morte.
- Vlado venha cá! Grita Rui Barbosa, que em seguida indaga: – Os jornalistas na terra estão muito mais acomodados não é?
- E como! Todos festejaram o fim da ditadura e da censura, mas hão de reconhecer que naquela época o jornalismo era exercido com mais força e amor a profissão. Concorda Vlado, jornalista morto durante a ditadura militar por sua atuação profissional.
- Meu caro, a censura militar acabou, mas isso não significa que nosso trabalho não seja submetido a censuras atualmente. Vivemos uma ditadura de tempo, não dá para esquecer que veículos comunicacionais também são empresas e que existe todo o lado publicitário por trás disso. Contraria Roberto Marinho.
- E você experiente empresário deste ramo sabe bem o que é isso! Afinal, o comportamento midiático da rede Globo de comunicações justifica-se pela relação empresarial que ela estabelece com seu público. Ironiza Cásper Líbero.
- Pois é Cásper! A minha empresa é realmente uma empresa de comunicações e funciona como tal. Mas mesmo assim se consolidou mundialmente e nossos jornalistas são muito competentes. Retruca Marinho.
Nesse momento Tim Lopes entra na conversa para dar sua contribuição:
- Mas essa história de censura de tempo e anúncios comerciais também não é desculpa para acomodação e trabalhos superficiais. Eu que deixei a terra há 6 anos não me prestei a esse tipo de trabalho, aliás, foi através do amor e dedicação pela minha carreira que estou aqui.
Um imenso silêncio invade o céu e eles param para uma reflexão. Todos estão pensativos e sem palavras, ninguém mais argumenta e nem mesmo iniciam um novo assunto. Até que:
- Você é uma prova viva, ou melhor, morta de que bons jornalistas ainda existem. Diz uma voz baixinha que vem de um cantinho distante. – São exemplos assim que deveriam nortear profissionais da área comunicacional e até mesmo o público. Afirma Carlos Lacerda, que com calma se insere no papo.
- Obrigado Lacerda! Mas não agi daquela maneira para servir de exemplo, apenas cumpri meu papel de jornalista. No entanto, reconheço que os profissionais de hoje deveriam valorizar mais a carreira e desenvolver um trabalho menos “feijão com arroz”. As palavras de Tim ecoam pelo céu e provoca um novo debate. Agora é a vez do diploma jornalístico.
- Mas tem outra coisa, como vamos exigir um bom trabalho se estão querendo derrubar a obrigatoriedade do diploma?! Desse jeito qualquer um que quiser poderá ser jornalista. Desabafa Marco Uchoa.
- Até eu, que não sou jornalista e que só tenho experiência como empresário do meio, concordo com você Marco. É um absurdo pensar que jornalista não precisa, ao mínimo, de graduação. Passar uma informação de qualidade não é simples e o público não precisa se sujeitar a receber notícias pobres de conteúdo e de vocabulário. Declara o fundador da RBS, Maurício Sirotsky Sobrinho.
- Para todos os efeitos eu deixei meu homônimo, Marcos Uchôa, lá na terra lutando por essa causa que é de todos nós! Espero que ele, junto com todos os jornalistas e com o público que quer continuar recebendo informações confiáveis, não deixe que essa idéia tola seja estabelecida.
- Na minha época, até se admitiam profissionais sem formação, afinal existiam poucos cursos de ensino superior e os que existiam não eram tão acessíveis. Conta Hipólito José da Costa, que continua: – Mas hoje, nenhuma pessoa aceita um médico que não estudou para isso, um advogado sem a prova da OAB, um dentista sem graduação. O público também não deve e nem pode consentir com a hipótese de que “jornalistas” sem graduação entrem em seu lar, diariamente, para informar-lhe, pois, dessa maneira, qual será o tipo de informação repassada?!
Sem que ninguém respondesse a interrogação de Hipólito, São Pedro sentenciou o veredicto:
- Todos de volta aos seus lugares! A reunião está acabada. Espero que a situação melhore e que debates como esse não voltem a atrapalhar a paz aqui no céu!
